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As ideologias são um conjunto de valores simbólicos de uma sociedade – entre outras coisas. Mas de que forma elas se materializam em nossa fala? Para uma certa teoria francesa (Análise do Discurso) do final dos anos 1960, uma sociedade compõe uma dada formação social (FS). Cada formação social (sociedade) possui em seu interior variadas formações ideológicas (F.I.). Assim, distinguimos com clareza a formação ideológica dominante (patrão) e a formação ideológica dominada (empregados). As formações ideológicas atuam sob a forma de paráfrase de maneira a colaborar para a manutenção dos papéis sociais de cada indivíduo (o empregado deve-se sentir feliz em estar empregado, assim como o patrão tem sua posição legitimada).

No interior de uma dada formação ideológica (F.I.), formulam-se indefinidas formações discursivas (F.D.) responsáveis por reger “o que pode e o que deve ser dito” em um momento histórico dado. A partir dessas formações discursivas derivadas de uma formação ideológica depreendemos os discursos, definidos assim por um conjunto de enunciados baseados em um mesmo sistema de formação. Dessa forma, em uma formação ideológica de esquerda, destacam-se as formações discursivas de esquerda, cada uma com sua particularidade – por exemplo, o discurso comunista endereçado a comunistas (F. D.–1 ) e o discurso comunista endereçado aos cristãos (F. D.– 2). Cada F. D. (formação discursiva) possui seus enunciados possíveis. Enunciado é qualquer manifestação verbal ou não verbal responsável por mobilizar efeitos de sentido diversos. Dessa forma, quando proferimos um enunciado, ele baseia-se em um dado sistema de formação que rege o discurso a que pertence, que por sua vez integra uma formação ideológica determinada, que caracteriza as possibilidades do dizível em nossa sociedade.

Renan Belmonte.

Quando o discurso político foi tomado como objeto de estudos de uma certa teoria francesa (denominada Análise do Discurso) a partir do final dos anos 1960, considerava-se apenas a modalidade escrita de tais discursos. Dessa maneira, era possível depreender a ideologia que subsistia no regime comunista, por exemplo, por meio de seu programa de governo, os discursos preparados para palanques, os textos que circulavam em jornais, etc.

Posteriormente, reconheceu-se a importância de outros elementos que significavam além da modalidade verbal da fala política. Esses outros elementos encontravam-se no próprio corpo do homem político. A gestualidade empregada quando ele proferia seus discursos, a entonação utilizada, de um lado, para proferir o discurso no palanque e, de outro, para proferir seu discurso na tevê. Assim, o discurso político depende de uma série de fatores além da palavra.

A imagem do homem público também sofreu modificações derivadas da evolução das tecnologias de comunicação. Um exemplo claro dessa questão é a imagem de Lula, modificada progressivamente quando foi declarado candidato à presidência da república em 2003. Posteriormente, Dilma Rousseff também efetuou o percurso de “modalização” da própria imagem.

Renan Belmonte.