Category: Política


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

As ideologias são um conjunto de valores simbólicos de uma sociedade – entre outras coisas. Mas de que forma elas se materializam em nossa fala? Para uma certa teoria francesa (Análise do Discurso) do final dos anos 1960, uma sociedade compõe uma dada formação social (FS). Cada formação social (sociedade) possui em seu interior variadas formações ideológicas (F.I.). Assim, distinguimos com clareza a formação ideológica dominante (patrão) e a formação ideológica dominada (empregados). As formações ideológicas atuam sob a forma de paráfrase de maneira a colaborar para a manutenção dos papéis sociais de cada indivíduo (o empregado deve-se sentir feliz em estar empregado, assim como o patrão tem sua posição legitimada).

No interior de uma dada formação ideológica (F.I.), formulam-se indefinidas formações discursivas (F.D.) responsáveis por reger “o que pode e o que deve ser dito” em um momento histórico dado. A partir dessas formações discursivas derivadas de uma formação ideológica depreendemos os discursos, definidos assim por um conjunto de enunciados baseados em um mesmo sistema de formação. Dessa forma, em uma formação ideológica de esquerda, destacam-se as formações discursivas de esquerda, cada uma com sua particularidade – por exemplo, o discurso comunista endereçado a comunistas (F. D.–1 ) e o discurso comunista endereçado aos cristãos (F. D.– 2). Cada F. D. (formação discursiva) possui seus enunciados possíveis. Enunciado é qualquer manifestação verbal ou não verbal responsável por mobilizar efeitos de sentido diversos. Dessa forma, quando proferimos um enunciado, ele baseia-se em um dado sistema de formação que rege o discurso a que pertence, que por sua vez integra uma formação ideológica determinada, que caracteriza as possibilidades do dizível em nossa sociedade.

Renan Belmonte.

Quando o discurso político foi tomado como objeto de estudos de uma certa teoria francesa (denominada Análise do Discurso) a partir do final dos anos 1960, considerava-se apenas a modalidade escrita de tais discursos. Dessa maneira, era possível depreender a ideologia que subsistia no regime comunista, por exemplo, por meio de seu programa de governo, os discursos preparados para palanques, os textos que circulavam em jornais, etc.

Posteriormente, reconheceu-se a importância de outros elementos que significavam além da modalidade verbal da fala política. Esses outros elementos encontravam-se no próprio corpo do homem político. A gestualidade empregada quando ele proferia seus discursos, a entonação utilizada, de um lado, para proferir o discurso no palanque e, de outro, para proferir seu discurso na tevê. Assim, o discurso político depende de uma série de fatores além da palavra.

A imagem do homem público também sofreu modificações derivadas da evolução das tecnologias de comunicação. Um exemplo claro dessa questão é a imagem de Lula, modificada progressivamente quando foi declarado candidato à presidência da república em 2003. Posteriormente, Dilma Rousseff também efetuou o percurso de “modalização” da própria imagem.

Renan Belmonte.

Não foi culpa do homem – dizia um desses programas da tarde, da tevê brasileira. Desta vez, e em partes – digo eu. De fato, o rearranjo das placas tectônicas na região do Japão não é culpa do homem. Mas os desdobramentos apresentados pela falta de energia elétrica responsável por interromper o resfriamento dos quatro reatores da usina nuclear de Fukushima, é.

Não bastasse uma série de tsunamis que arrastaram impiedosamente tudo o que encontravam diante de si, as usinas nucleares do nordeste do território japonês, concebidas para suportar até mesmo colisões com aviões, não suportaram a combinação catastrófica de tsunamis e abalos sísmicos (previstos).

Como sabemos, o território japonês localiza-se na junção de quatro placas tectônicas, e, em função disso, possui uma das melhores tecnologias de prevenção e previsão de acidentes causados por terremotos. Mas outro fator geográfico potencializou a devastação natural ocorrida em Sendai – o mar do entorno. O Japão é cercado pelo mar, e a acomodação de das placas tectônicas ocorreu a pouco mais de 100 km da costa japonesa, o que provocou, além do abalo sísmico, uma onda gigante que lhe foi proveniente.

Os problemas com a usina nuclear de Fukushima geraram debates acalorados em toda a Europa. A França – que possui mais de 70% de sua energia proveniente de usinas nucleares – assistiu esses dias a manifestações diversas cobrando clareza de informação quanto à situação de suas usinas em atividade. A Alemanha – com cerca de 26% de sua energia gerada por usinas nucleares – tomou a medida de desativar aquelas em atividade desde os anos 80.

O Brasil possui Angra 1 e Angra 2. Tudo está bem por enquanto… Não estamos sujeitos a abalos sísmicos, estamos em uma região confortável, bem em cima de uma das placas tectônicas. Dentro dos reatores há fissão de átomos de urânio. Dentro dos países, cada vez mais demanda por energia elétrica. Essas questões se desdobram sobre uma tensão incontornável. Só nos resta esperar para que a situação no Japão melhore. Só nos resta não esquecer também que o Brasil ainda tem sofrido com enchentes e desmoronamentos, famílias desalojadas, etc.

 

Renan Belmonte.

 

Numa tarde quente do último dia de outubro, o Brasil elegeu sua primeira presidente mulher. Concordo com Fernando Rodrigues (Editorial “Lula 2014” – Folha de S. Paulo, 3 nov) quando ele diz não acreditar que Lula voltará a ser candidato em 2014.

A princípio, pareceu uma estratégia muito bem pensada do PT: eleger uma sucessora de Lula, continuar seu governo (tendo-o nos backgrounds do cenário político) para que ele possa retornar triunfante quatro anos mais tarde. Pensar assim é inocência.

Eis o porquê da inocência: Dilma Rousseff (sua figura) é uma mulher de personalidade forte, militante na guerilha contra o regime ditatorial dos anos 70; tinha tudo para ser uma patricinha, mas preferiu deixar o conforto do seu lar, arregaçar as mangas e enfrentar o que enfrentou. Parece-me que não houve ainda na história política brasileira tal boneco extremamente manipulável. Se Dilma Rousseff fizer um bom governo, por que não irá querer candidatar-se novamente e inscrever seu nome nas próximas páginas da história do Brasil?

Por dois motivos, foi bom ela ter sIdo eleita: 1) não será bom para o Partido dos Trabalhadores se Dilma Rousseff apresentar uma liderança medíocre, borrando a imagem de Lula (veja o caso de Maluf, que disse “Se o Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim”); 2) a oposição esperará avidamente por um deslize para pensar na legenda para os candidatos de 2014. Por essas duas questões, acredito que Dilma Rousseff será pressionada a governar bem (na direção do combate à miséria e à melhora na educação brasileiras).

Por fim, gostaria de manifestar aqui minha indignação contra as ondas preconceituosas que têm sido feitas em relação ao Nordeste. Se o Nordeste em peso votou em Dilma Rousseff, não é porque nordestino não sabe votar; ao contrário, é porque alguém (diferente dos governos anteriores) prestou atenção nessa região, tão carente de alguns recursos que sobram em São Paulo.

Paulistas, experimentem outras formas de pensar.

 

Renan Belmonte.

Por ocasião dessas eleições de 3 de outubro, fiquei esperando o posicionamento dos jornais impressos do dia seguinte, comentando os fatos. Devo dizer que não fiquei surpreendido.

O objetividade da mídia (jornais, telejornais, revistas) é uma ilusão. O que se tem, efetivamente, é um “efeito de objetividade” buscado pelo discurso jornalístico. Dessa maneira, quando dizemos que alguma notícia foi imparcial, o “efeito de objetividade” foi alcançado com sucesso, enredando os sujeitos em uma crença de que se narra os fatos pelos fatos. É por isso que escrevi esse post.

Assim, no dia 4 de outubro, surge nas bancas o seguinte exemplar da Folha de S. Paulo:

 

F.S.P 4 out 2010

 

Como sabemos, a Folha se coloca naquilo que se convencionou chamar de “mídia de direita” brasileira. E ainda assim, é problemático dizer “direita política” uma vez que há tantas coligações e interesses próprios de nossos “honestos” políticos… mas é preciso chamá-la de algum nome.

O fato é que Dilma Rousseff e José Serra foram para o segundo turno. A petista recebeu 47.651.434 votos, o equivalente a 46,91% dos votos válidos (que exclui brancos e nulos). Serra obteve 33.132.283 votos (32,61% dos votos válidos). Marina Silva (PV) foi a terceira, com 19.636.359 votos (19,33%).

Considerando a página principal da Folha, observamos as imagens de Serra e Dilma lado a lado, do mesmo tamanho, realizando ambos quase o mesmo gesto de cumprimento aos eleitores. Será objetividade? Na verdade, é efeito – a Folha explora uma “ordem do olhar” para destacar a foto de José Serra. A ordem do olhar faz com que percorremos as fotografias sequenciais da esquerda para a direita (como acontece nas histórias em quadrinhos, por exemplo). Esse fato confere à foto de Serra uma posição de destaque.

Não bastasse as imagens falarem por si (e por outros), o texto também age em prol do efeito. “Marina arranca e força 2º turno entre Serra e Dilma”, logo acima das seguintes notícias fragmentadas:

 

(Clique nas imagens para ampliar)

 

Onde observamos

a) ênfase em elementos negativos da eleição de Dilma Rousseff: “Petista perde votos na classe C”

b) ênfase em elementos positivos da eleição de José Serra: “Tucano recupera eleitores em SP e fica acima do estimado nas últimas pesquisas”.

Portanto, nesse breve texto que deve ser um post, é possível dizer que

1)      A disposição das imagens colabora para o destaque de José Serra;

2)      O texto sob a imagem atribui à Marina Silva o papel de forçar o segundo turno;

3)      O caderno especial de eleições da Folha enfatiza elementos negativos de Dilma Rousseff e elementos positivos de José Serra.

É por esses e outros motivos que o discurso da Folha inflexiona-se para a chamada “direita” política e não para a esquerda, a partir de significados visuais e textuais. Esses traços do sentido são sobretudo sutis, imperceptíveis em uma primeira batida do olhar. Um olhar treinado, contudo, descobre nuances, desvela intenções… Em suma, as intencionalidades podem ser agarradas no ar.

Até a próxima análise! Não deixem de comentar!

Renan Belmonte.

Olá Pessoal!

Época de eleições. Muitas coisas em jogo. Muitas opiniões duelando. Mais do que defender este ou aquele candidato, considero importante colocá-los em discussão. Por isso, o vídeo a seguir. Tirem suas próprias conclusões.

Renan Belmonte.