Category: Pintura


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

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Dois enigmas de Monalisa

Olá a todos! Devido às mais de 100 visitas de ontem, referentes ao post Não há silêncio que não termine – sobre o livro de Ingrid Betancourt e os poemas de Pablo Neruda, escrevi esse post comemorativo!

A pintura canônica Monalisa (La Gioconda, em italiano; ou La Joconde, em francês) é a obra-prima de Leonardo da Vinci, pintada em 1507, durante a Renascença na região da Florença, na Itália. É o quadro mais famoso da História da Arte, não só por ser uma imagem fundante, mas também por ser a obra mais reproduzida na sociedade ocidental.

 

Monalisa, Leonardo da Vinci, 1507

Assinalarei, pois, dois enigmas que compõem a obra:

1) A diferença de horizontes: se prestarmos atenção, a linha do horizonte do lado direito do rosto de Monalisa é mais alto do que a linha do horizonte do lado esquerdo de seu rosto. Essa diferença de perspectiva faz com que a Monalisa aparente ser maior quando observada do lado esquerdo; e menor se observada do lado direito.

2) A falta de sobrancelhas: além do sorriso enigmático já muito conhecido, a representação apresenta também a aparente falta de sobrancelhas no rosto de Monalisa, contribuindo para a expressão alcançada por Da Vinci.

Não podemos dizer que esses dois elementos são falhas do artista. Muito pelo contrário, Leonardo da Vinci era um gênio e com certeza esses elementos visuais significam algo. Os historiadores da arte buscam a resposta, mas há talvez a possibilidade de Da Vinci ter levado seus segredos para o túmulo, junto de si.

Renan Belmonte.

Olá a todos!

Pelo fato de ser muito trabalhoso para muitas pessoas compreenderem em um curto espaço de tempo (“espaço” de tempo?) as principais características de nossos maiores pintores clássicos, disponibilizei um breve resumo – muito didático – que ilustra as diferentes escolas e seus estilos! Acompanhem!

Pra que decorar os volumosos compêndios de História da Arte e seus inumeráveis elementos essenciais, se já criaram tal figura, com eficaz capacidade de síntese?

Warhol Rules!!!

Até a próxima!

Renan.

(1) Las meninas - Diego Velásquez

O pintor está ligeiramente retirado no quadro. Ele lança um olhar para o modelo: talvez se trate de acrescentar um último toque, mas é também possível que o primeiro traço ainda não tenha sido dado. O braço que sustenta o pincel está dobrado para a esquerda, na direção da palheta; ele está, por um momento, imóvel entre a tela e as cores. Essa mão hábil está suspensa ao olhar; e o olhar, retroativamente, repousa sobre o gesto detido. Entre a fina ponta do pincel e o aço do olhar, o espetáculo vai liberar seu volume. (Michel Foucault, As damas de companhia).

Um volume incontornável em sua totalidade, maior do que os olhos podem ver. Essa é a sensação que temos ao olhar para esse quadro de Diego Velásquez, um dos maiores pintores espanhóis que já viveu no século XVII. À parte os detalhes de sua vida pessoal, em seus quadros é recorrente a ideia da consciência da representação, muito característica de Velásquez. Em Las meninas, essa “consciência” é atingida quando nos detemos um instante a mais na observação dessa obra-prima. Num primeiro momento, somos levados a crer que o modelo a ser pintado é a menina de vestido branco, pois ela ocupa o centro da pintura, a luz incide sobre ela e as damas de companhia inclinam-se em sua direção, conferindo-lhe destaque. Daí irrompe o primeiro choque: o pintor olha para fora do quadro: o que ele quer pintar não se encontra dentro da pintura, ou seja, o modelo se encontra fora das molduras. Enfim, o segundo choque: percebemos próximo ao pintor e atrás da menina (ao centro) um espelho, e nele entrevemos a figura distorcida do casal real, Felipe IV e sua esposa Marianna. Ao centro do quadro, percebemos, é a infanta Margarita.

Deixamo-nos permanecer, ainda, diante do quadro… observando seu jogo de espelhos. As pinturas na pintura, o reflexo em tintas, uma geometria espacial construída de tal forma a confundir o espectador mais desatento. O que o quadro quer mostrar (mostrar? dizer?), sim, é esse jogo de olhares, de reflexos, de contemplação desconfortável. E eis que vem a Internet e desestrutura esse jogo múltiplo.

(2) Las meninas tv - Siro López

Essa criação de Siro López é como um sopro em um castelo de cartas. A televisão aí inserida desestrutura o jogo de olhares ao mesmo tempo em que desloca o quadro para nossa contemporaneidade. A tevê ocupa um lugar especial na sala, distraindo as crianças enquanto o pintor faz seu trabalho, que não as interessa. Todo o trabalho de iluminação que emerge da tevê restitui à princesa seu papel central no quadro, esquecido na versão original. As damas de companhia que rodeiam a princesa – e inclusive ela – não olham mais para o exterior do quadro, para fora das margens, da moldura; mas para a tevê, dentro ainda do quadro. A breve pausa do pintor talvez se deva a um momento importante da novela…

A manipulação digital de obras canônicas é muito interessante. Ela dá margem a outras interpretações possíveis, deixa o sentido navegar por outros continentes. Vale a pena conferir mais dessas releituras presentes no site Consumehastamorir.org.

(*) Esse texto foi publicado na blogosfera  da Eptv – Interior de SP. Confira “Blog no ar”  http://eptv.globo.com/blog/?http://eptv.globo.com/blog/blog.asp?id=40