Category: Outros assuntos


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

Na esteira das afirmações de que “informação” não é “conhecimento”, mas alertando para o fato de que conhecimento é aquilo que se faz com a informação, disponibilizarei mais um vídeo das possibilidades criadas pela tecnologia: o coro virtual.

O coro virtual é uma nova prática porque depende estritamente da tecnologia para existir. Sem ela, essa manifestação de voz como em uma arena não seria possível. Ela poderia existir sob o signo de outras naturezas materiais, mas não da forma como observamos nesse vídeo.

Encantem-se com Lux Aurumque:

Renan Belmonte.

O forasteiro

As linhas seguintes pretendem definir o que é um forasteiro.

O espaço é sempre outro, o tempo é sempre pouco, e as pessoas com quem ele se relaciona mudam indefinidamente: para o forasteiro, deslocar-se é uma necessidade. Ele tem qualquer coisa da cultura nômade, creio, cuja prática do deslocamento constante é sua maior herança.

Quando chega em um lugar desconhecido, o forasteiro não é jamais aceito de antemão, ele deve conquistar todas as pessoas com as quais ele deseja travar relações. De imediato, ele é visto como um diferente, um elemento que não pertence ao grupo – um estranho. Este é o obstáulo inicial do forasteiro, o de haver sempre a necessidade da conquista do outro. Uma vez introduzido no grupo, o forasteiro possui um trunfo: a “primeira impressão”. Uma vez que ele é o estranho, possui como ninguém a habilidade de manipular a imagem que os outros fazem dele. A primeira impressão é a principal arma do forasteiro.

Os rostos são sempre diferentes, e o forasteiro tenta incessantemente enxergar os traços que identificam os seus alvos. O forasteiro é antes de tudo uma máquina de manipular: frio e vil. Sua rotina consiste em manipular a imagem que os outros fazem dele para deles extrair o que lhe é de interesse. Uma vez conquistado o objetivo, o forasteiro coloca pessoas de lado, mas não as deixa distantes, pois elas podem lhe ser útil em momentos de desconforto.

O forasteiro é um eterno aprendiz, pois tem contato constante com seus opostos – e seus diferentes. O forasteiro tem o poder da objetividade, observando todos os fatos e todas as pessoas com um distanciamento que somente ele é capaz de agenciar; à sua maneira, portanto, ele reconhece comportamentos, gestos corporais que são repetitivos em um dado grupo.

O forasteiro é um eterno professor, pois suas experiências acumuladas nunca o deixam sozinho. Por mais que se encontre diante de situações novas, as velhas lembranças são convidadadas a retornarem – mesmo quando não são requisitadas. Sendo assim, ele tem sempre histórias a contar, experiências a compartilhar. Isso faz dele um sujeito de comunicação, pois a conversa um é uma de suas principais ferramentas com vistas a manipular o outro.

O forasteiro não esquece jamais o lugar de onde é. No entanto, ele é de outros lugares, e sua origem compõe como que uma pequena – porém importante – parcela da soma dos lugares pelos quais passou. Em trajeto pelos lugares novos, a lembrança do local de onde o forasteiro é sempre vem sob o signo da contraposição. Uma cidade nova só é nova na medida em que se diferencia mais ou menos de seu lugar.

O forasteiro é um flâneur, na medida em que ele é sempre distante (objetivamente distante), mas subjetivamente próximo (emocionalmente demasiado próximo). Seus olhos são de lince, à procura de caças que se deixam ler, que se deixam levar, que se deixam matar. Os forasteiros não são nem mais felizes nem mais tristes que as pessoas comuns, ele apenas vivenciam as experiências de forma mais intensa do que os outros. Sua vida constrói-se nas cicatrizes indeléveis da constante mutação.

Renan Belmonte.

Olá caros leitores do Linkando Alto!

Agradeço a vocês pelas mais de 100 visitas de ontem! Fiquei muito feliz!

Estatística 29 de novembro

Continuem acompanhando!

Renan Belmonte.

Por ocasião dessas eleições de 3 de outubro, fiquei esperando o posicionamento dos jornais impressos do dia seguinte, comentando os fatos. Devo dizer que não fiquei surpreendido.

O objetividade da mídia (jornais, telejornais, revistas) é uma ilusão. O que se tem, efetivamente, é um “efeito de objetividade” buscado pelo discurso jornalístico. Dessa maneira, quando dizemos que alguma notícia foi imparcial, o “efeito de objetividade” foi alcançado com sucesso, enredando os sujeitos em uma crença de que se narra os fatos pelos fatos. É por isso que escrevi esse post.

Assim, no dia 4 de outubro, surge nas bancas o seguinte exemplar da Folha de S. Paulo:

 

F.S.P 4 out 2010

 

Como sabemos, a Folha se coloca naquilo que se convencionou chamar de “mídia de direita” brasileira. E ainda assim, é problemático dizer “direita política” uma vez que há tantas coligações e interesses próprios de nossos “honestos” políticos… mas é preciso chamá-la de algum nome.

O fato é que Dilma Rousseff e José Serra foram para o segundo turno. A petista recebeu 47.651.434 votos, o equivalente a 46,91% dos votos válidos (que exclui brancos e nulos). Serra obteve 33.132.283 votos (32,61% dos votos válidos). Marina Silva (PV) foi a terceira, com 19.636.359 votos (19,33%).

Considerando a página principal da Folha, observamos as imagens de Serra e Dilma lado a lado, do mesmo tamanho, realizando ambos quase o mesmo gesto de cumprimento aos eleitores. Será objetividade? Na verdade, é efeito – a Folha explora uma “ordem do olhar” para destacar a foto de José Serra. A ordem do olhar faz com que percorremos as fotografias sequenciais da esquerda para a direita (como acontece nas histórias em quadrinhos, por exemplo). Esse fato confere à foto de Serra uma posição de destaque.

Não bastasse as imagens falarem por si (e por outros), o texto também age em prol do efeito. “Marina arranca e força 2º turno entre Serra e Dilma”, logo acima das seguintes notícias fragmentadas:

 

(Clique nas imagens para ampliar)

 

Onde observamos

a) ênfase em elementos negativos da eleição de Dilma Rousseff: “Petista perde votos na classe C”

b) ênfase em elementos positivos da eleição de José Serra: “Tucano recupera eleitores em SP e fica acima do estimado nas últimas pesquisas”.

Portanto, nesse breve texto que deve ser um post, é possível dizer que

1)      A disposição das imagens colabora para o destaque de José Serra;

2)      O texto sob a imagem atribui à Marina Silva o papel de forçar o segundo turno;

3)      O caderno especial de eleições da Folha enfatiza elementos negativos de Dilma Rousseff e elementos positivos de José Serra.

É por esses e outros motivos que o discurso da Folha inflexiona-se para a chamada “direita” política e não para a esquerda, a partir de significados visuais e textuais. Esses traços do sentido são sobretudo sutis, imperceptíveis em uma primeira batida do olhar. Um olhar treinado, contudo, descobre nuances, desvela intenções… Em suma, as intencionalidades podem ser agarradas no ar.

Até a próxima análise! Não deixem de comentar!

Renan Belmonte.

A animação acima, denominada The Piano, é um exemplo de ressignificação musical: a composição em piano (Comptine d’un autre été) pertence originalmente ao filme Amelie Poulin, mas nesta animação ela é o plano de fundo da narrativa visual.

Nessa narrativa, o protagonista é atravessado constantemente por suas memórias, que o assombram e o enfrentam diante de nós, espectadores da curta-animação. Memórias de seu casamento, de sua participação na guerra, da perda de seu amigo e do nascimento de outros personagens…

Vale a pena conferir e observar os sentidos que retornam incessantemente, como as referências à solidão, à passagem do tempo, e à renovação de tudo.

As animações, as músicas e os materiais culturais, em geral, trazem em sua materialidade resquícios de práticas com as quais lidamos diariamente. Elas são o seu reflexo incondicional.

Renan Belmonte.

Cartier-Bresson - Downtown, New York, 1947

Tenho essa fotografia na porta de meu guarda-roupas, desde os tempos da graduação. Na minha opinião, Henri Cartier-Bresson é um dos mais geniais fotógrafos do século XX, não sem razão considerado o pai do fotojornalismo.

Cidade de Nova Iorque: 1947. Um homem de chapéu, sentado, observa um gato, que também o observa. Um homem e um animal em uma viela escura… no centro de Nova Iorque. O efeito de solidão é atingido pela opressão efetuada pelos dois prédios que, ao redor, erguem-se altivos. No meio da cidade encontra-se um homem solitário.

Para Cartier-Bresson, a fotografia é isso: a captura de um instante irrecuperável, volátil, volúvel – evanescente. A técnica fotográfica (o que se convencionou chamar de “arte” fotográfica) possibilita, entre outras coisas, essa pequena “eternização” do instante. Seu congelamento no tempo, sua deriva no espaço.

O enquadramento visível em Downtown recupera a “frieza” de uma cidade em plena expansão, altos edifícios de madeira e pedra, ninguém passa pela rua. A cor cinza contorna a fotografia e intensifica ainda mais esse efeito.

Cartier-Bresson dominou cirurgicamente a técnica artesanal das lentes… em uma época na qual as câmeras digitais não passavam de meras ideias perdidas nas mentes de alguns visionários.

Renan Belmonte.

Olá Pessoal!

Época de eleições. Muitas coisas em jogo. Muitas opiniões duelando. Mais do que defender este ou aquele candidato, considero importante colocá-los em discussão. Por isso, o vídeo a seguir. Tirem suas próprias conclusões.

Renan Belmonte.

A mídia eletrônica – em especial a blogosfera – não fala de outra coisa: Cléo Pires, filha de Glória Pires e Fábio Júnior, será capa da edição comemorativa de 35 anos da revista Playboy. Essa edição, em especial, e como nunca antes, será recheada por dois ensaios distintos protagonizados pela atriz de 27 anos. Zapeando entre links que tratam do assunto e entre fotografias prévias do ensaio que sem demora foram logo colocadas em circulação, deparei-me com a imagem abaixo.

Cleo Pires - por Bob Wolfenson

O corpo (ou o que vemos dele) está levemente inclinado para o lado. O rosto destaca-se por estar devidamente alinhado com a câmera fotográfica. Os olhos nos encaram, impassíveis. Prometem uma penetração irreversível. Ameaçam revelar nosso segredo, se de fato houver algum, mais recôndito. A palavra é essa: “ameaçam”. Mas ao mesmo tempo seduzem. Entre o aço do olhar e a fragilidade do corpo feminino, o espetáculo libera seu volume.

Por conta disso (mas não só), resolvi investigar a emergência da expressão, isto é, os motivos pelos quais as expressões faciais significam tal ou tal coisa. E vejam só: desde tempos imemoriais os homens desejam decifrar os sinais do rosto – ler seus signos, seus sintomas.

A ciência que pretendia ler as marcas do rosto a fim de desvendar a alma do indivíduo chamava-se Metoscopia. A metoscopia é para o rosto o que a quiromancia é para as mãos. Existiam compêndios de metoscopia datados do ano 1658, vejam:

Recorte de J. Cardan, Métoscopie, Paris, 1658. Em: Courtine e Haroche, p. 48.

LEGENDAS 1 – “Rosto marcado por linhas de viagens marítimas” /2 – “Rosto marcado por linhas de viagens terrestres” /3 – “Rosto marcado por linhas de inconstância” / 4 – “Rosto marcado por linhas de usura”. [Cliquem na foto para ampliá-la].

No ano de 1658, algumas pessoas acreditavam que a alma de uma pessoa era exteriorizada através de marcas no rosto. E essas marcas podiam ser lidas – pela metoscopia. Outro exemplo:

Ch. Le Brun, Fisionomias de homens e de animais, 1671 - Foto do Museu do Louvre. Em: Courtine e Haroche, p. 72.

Essa página é de um livro de 1671, que explicava a correlação entre as fisionomias de homens e de animais, segundo a qual, se um homem se assemelhasse com determinado animal, era porque ele possuía as mesmas características de personalidade do animal correspondente. É o caso da imagem acima – a coruja. O homem seria sagaz e esperto como a coruja, uma vez que possuía os olhos atentos e redondos; o nariz pontiagudo e a boca pequena.

Voltando à foto registrada por Bob Wolfenson, de Cléo Pires: a morfologia de seu rosto atesta a paternidade de Fábio Jr.

[FILHA E PAI]

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A princípio, as correspondências físicas são inegáveis. Ok. Mas… e quanto à sua personalidade, suas vontades, seu passado; essas características são explicitadas por marcas faciais? O que se deixa ser compreendido entre o aço do olhar e a lente da câmera?

Até mais!

Renan Belmonte.

Algumas referências

COURTINE, J.-J.; HAROCHE, C. História do Rosto. Lisboa: Editora Teorema.

Parece que o tema do triângulo amoroso está em alta ultimamente – ou será que sempre esteve? – porque ele atravessa com frequência as músicas pop contemporâneas. A seguir, comparei dois vídeos: o primeiro, a música Thinking of you da cantora Katy Perry; o segundo, a canção A fleur de toi de Vitaa (cantora francesa). Uma canção em inglês e outra em francês com a mesma estrutura.

A certa altura da música, ouve-se:

Cause when I’m with him
I am thinking of you
Thinking of you

Porque quando estou com ele
Estou pensando em você
Pensando em você

O enunciador – aquele que detém a palavra, no caso uma garota triste – dirige-se a um enunciatário (um ouvinte). Esse ouvinte é o amor que ela não esqueceu. Percebemos isso pelo uso de you (segunda pessoa) em detrimento de him (terceira pessoa, o que representa um afastamento).

Guardemos esse fato: uma garota que se declara para um antigo amor.

Próximo vídeo:

Um trecho da letra:

J’essaye de t’oublier avec un autre,
Le temps ne semble pas gommer tes fautes,
Je ne l‘aime pas comme toi.

Lui,
Il a tenté de me consoler
Même si il n’a pas tes mots ni ton passé

Eu tento te esquecer com outra pessoa,
O tempo parece não apagar teus erros,
Eu não o amo com a ti

Ele tentou me consolar
Mesmo ele não tendo tuas palavras nem teu passado

Assim, novamente percebemos a construção:

C (uma pessoa com a qual A está se relacionando no presente)

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A (enunciador feminino)    —–>    B (um amor não esquecido do passado)

A Declarando-se para B (sempre se referindo a C)

O “amor” atual é sempre tratado na terceira pessoa “ele”, il, he – um outro; enquanto o amor do passado é sempre presente na mente da enunciadora, tão presente que ocupa a posição de parceiro no diálogo (segunda pessoa “você, you, tu/toi), para quem a enunciadora se dirige, na música, para realizar a declaração romântica e saudosista.

Até a próxima!

Renan Belmonte.