Category: Livros


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

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Sempre que chegam as festas de fim de ano, costumo deixar de lado momentaneamente as leituras específicas do meu trabalho e voltar à literatura. Nesse fim de ano, escolhi ler Os três mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas. Dumas foi um romancista do século XIX, e escreveu, entre outras obras, A dama das camélias, O conde de Monte Cristo, O homem da másccara de ferro, O colar de veludo, etc. Assim, escolhi Os três mosqueteiros por sua sólida presença e seu frequente retorno na cultura ocidental.

Os três mosqueteiros foi alcunhado de “romance histórico”, pelo fato de apresentar características reais das condições de produção do momento em que foi escrito. Isso significa que, por meio do livro, é possível depreender elementos da sociedade francesa do século XIX.

A princípio, o livro intriga pelo título: por que se mencionam “três” mosqueteiros, se são de fato quatro? D’Artagnan é o mais conhecido deles, e ele é o quarto mosqueteiro (aquele que se utiliza de mosquetes). Durante a leitura do livro, percebemos que os mosqueteiros são os guardas do rei Luís XIII da França, e os mais eminentes são três: Athos, Porthos e Aramis. A esses três o título faz referência. Contudo, em dado instante da narrativa, chega de uma pequena província francesa um certo rapaz, jovem ainda (porém de muita coragem) que sonha em fazer parte do grupo de mosqueteiros de Paris. Seu nome é D’Artagnan, que por sua coragem e atitude ajuda os três mosqueteiros em um momento de dificuldade, e suas habilidades são logo reconhecidas pelo rei. É uma questão de tempo, portanto, para que D’Artagnan se torne também um mosqueteiro real.

E pensando nisso, chamou minha atenção uma propaganda atual da Skol. Nela, aparece um slogan que se tornou muito conhecido: “Um por todos e todos por uma”.

 

Slogan Skol

De onde vem, pois, essa voz? Quais são os caminhos que percorreram os sentidos para que, em 2010, em uma publicidade de cerveja, irrompesse tal enunciado?

Esse slogan tem origem em Alexandre Dumas. Como sabemos, o lema dos mosqueteiros era “Um por todos e todos por um”. Quando um mosqueteiro se encontrava em apuros, os outros imediatamente deixavam o que quer que estivessem fazendo para ajudar nos duelos de espada em favor de seus companheiros.

Uma das características dos slogans é deslocar os “saberes comuns”. Ele apropria-se de uma frase conhecida, e a corrompe, transformando-na em “Um por todos e todos por uma”. Esse “uma”, ninguém tem dúvida, é uma latinha/garrafa de Skol. É essa alteração da frase cristalizada que caracteriza o slogan. É nessa mudança que ele atinge o consumidor, ou o espectador da propaganda. É como que um punctum verbal (só pra lembrar Barthes).

Outra razão para a retomada de Dumas nas propagandas de cerveja é o fato de que sua obra é clássica, canônica. Os textos canônicos são inevitavelmente convidados a retornar sem explicação; eles simplesmente retornam e significam, eles compõem as bases culturais da cultura ocidental, e por isso mostram-se sempre presentes, de uma forma ou de outra, em um desenho, em uma música, em uma propaganda, em um slogan.

“A nós, mosqueteiros!”

Renan Belmonte.

Essa frase, escolhida por Ingrid Betancourt para compor o título de seu livro (Não há silêncio que não termine: meus anos de cativeiro na selva colombiana. Ed: Companhia das Letras), é de Pablo Neruda, poeta chileno. “Meu pai” – dizia ela – “sempre recitava pra mim os versos de Neruda, lembrava deles na selva”.

Neruda é hoje um dos maiores nomes no que se refere ao verso em língua espanhola. Seus textos são fundantes em nossa sociedade, por isso podemos considerá-lo como um escritor canônico. Abaixo, os versos “Me gustas cuando callas”:

 

 

Esse é o poema XV do livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, publicado em 1924. Neruda escreveu esses versos quando tinha por volta de 20 anos. Neles, cruzam-se o erotismo referente ao corpo feminino e elementos da natureza. Acreditamos que esse livro conseguiu grande projeção; é uma de suas obras mais famosas, de grande maturidade embora tenha sido escrito com 20 anos.

Seus versos mais geniais, na minha opinião, compõem o famoso poema XX:

 

 

As palavras em espanhol nos textos de Neruda parecem acompanhar o objeto denotado. As palavras se aproximam das coisas de uma maneira que poucos poetas sabem de fato fazer.

Como os grandes poetas, Pablo Neruda habita o espaço sagrado do cânone literário, aquele no interior do qual as palavras contraem uma identidade própria segundo a genialidade de seu autor. Em outras palavras, Neruda é uma leitura obrigatória.

“Gosto quando se cala, porque está como que ausente, você me ouve de longe e a minha voz não te toca.”

Renan Belmonte.

Por ocasião de um trabalho acadêmico, acabei relendo Dom Casmurro, de Machado de Assis, o último romance de sua trilogia mais madura (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro). Tinha me esquecido de como esse livro é genial. Machado não nos deixa pistas se, de fato, Capitu traiu Bentinho – uma vez que sabemos dos fatos por meio da visão subjetiva do narrador (em primeiríssima pessoa): Bento Santiago. Muitos são os conteúdos midiáticos que derivaram da obra literária de Machado, ou seja, o filme Dom e a minissérie global Capitu, entre outros. Muito se fala dos “olhos de ressaca” de Capitu, uma das personagens mais atrevidas e interessantes da literatura brasileira. Por isso, resolvi resgatar o trecho do livro em que Bentinho se vê diante dos olhos de Capitu. A partir dessas linhas, todo o mais se fez.

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– Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
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Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…
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Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, para dizer alguma cousa, que era capaz de os pentear, se quisesse.     “
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Dom Casmurro (p. 70).
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O destaque em amarelo sublinha a explicação da metáfora da ressaca, como o mar que, depois de quebrar suas ondas, atrai-nas novamente às suas profundezas.
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Renan Belmonte.

Esse post é uma homenagem a Roland Barthes, como muitos outros que ainda escreverei. Ele é um dos melhores escritores que já houve; encontra-se nas regiões do alto, não visitadas por quase ninguém… Com vocês, na opinião dele, o que é ser um escritor:

O escritor está possuído por um tirano deus interior, que fala a todo instante sem se importar com as férias do seu médium. Os escritores estão de férias, mas a Musa está desperta e produz ininterruptamente. (Roland Barthes, O escritor de férias).

O escritor produz mesmo no sono, mesmo na exaustão, mesmo nas férias. Há algo que – apesar de tudo – leva-o a falar ou a escrever. Empurra-o. Nasce dele. Os bons escritores não precisam se defender. Sua obra é maior que tudo isso. Maior do que todos os burburinhos que podem haver.

Renan Belmonte.

Certa vez, um grande cineasta brasileiro, quando perguntado por Antônio Abujamra sobre qual livro ele jamais escreveria, respondeu-lhe: “O grande Gatsby.” Não apresentou ao telespectador qualquer argumento. Certamente não os tinha.

Termino a leitura de O grande Gatsby surpreso. Comecei a lê-lo com uma certa opinião negativa e finalizei-o com várias positivas. De imediato, mesmo não sabendo o porquê, descubro que minha admiração se deve à sua linguagem sincrética/sintética. Le mot juste, também presente em mestres como Stendhal e Flaubert, cujo tema minimalista less is more era protagonista em seus trabalhos – definindo-os. Sucesso de público, críticas e número de exemplares vendidos até hoje, não há como negar a importância de The great Gatsby. F. S. Fitzgerald foi contemporâneo de outros escritores de renome, entre eles E. Hemingway e John Dos Passos. Exponho a seguir um trecho interessante de Roberto Muggiati, tradutor e prefaciador do livro em língua portuguesa:

Dos três, Fitzgerald parece o menos revolucionário. Hemingway estonteia e deleita o leitor com suas ricas e alongadas descrições em contraste com os diálogos breves e secos. Dos Passos tentou emular em palavras novas técnicas de comunicação como a reportagem, a fotografia, o cinema, o rádio, atingindo uma nova dinâmica com a sua prosa. Fitzgerald não exagerava nas descrições nem tinha (ou pretendia ter) o diálogo brilhante de Hemingway; nem tentou se aventurar em nenhum experimentalismo vanguardista como Dos Passos o fez. (R. Muggiati).

O livro impressiona por alguns paradoxos. Entre eles, a complexidade e simplicidade do enredo: dois triângulos amorosos e uma relação sem futuro. Tom – Deisy (–Gatsby) / Wilson – Myrtle (–Tom) / Nick e Jordan. As ações ocorrem em Long Island. A linguagem simples e cheia de significado deixa o livro mais leve e fluido. Recomendo; e sendo assim, termino este post com as palavras de um importante crítico de Gatsby, o senhor Matthew J. Bruccoli: “O grande Gatsby não proclama a nobreza do espírito humano; não é politicamente correto; não revela como resolver os problemas da vida; não transmite mensagens da moda ou consoladoras. É apenas uma obra-prima.”

Algumas referências

FITZGERALD, F. S. O grande Gatsby. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Até a próxima análise!

Renan Belmonte.

Capa de O grande Gatsby

O mês de julho, mesmo para quem trabalha, é um período diferente do resto do ano. Na minha opinião, há a possibilidade de se fazer algo diferente da rotina a que se está acostumado. Entre outras coisas, ler um bom livro é sempre uma opção válida. No meu caso, que durante o ano leio muitos livros específicos de minha área de atuação, julho e dezembro/janeiro é hora de ler algo diferente. Assim, nesse mês comecei a ler O grande Gatsby, do escritor norte-americano F. S. Fitzgerald. Antes de lê-lo, contudo, pus-me à escuta de vozes que falavam bem do livro, e de outras que falavam muito mal. Tendo a me posicionar entre as pessoas que falam bem. O livro focaliza a vida de Gatsby por meio da narração em primeira pessoa de Nick, personagem-narrador que mora ao lado de Gatsby, um ricaço do período pós-guerra. Nick é primo de Deisy, por quem Gatsby é apaixonado.

À parte detalhes da narrativa (muito bem construída, por sinal), o que se destaca nesse livro de Fitzgerald é a ironia que atravessa a história. É uma ironia sutil, de canto de boca, que passa despercebida pelos leitores menos atentos. O que mais se ironiza nessa obra é a ostentação de Gatsby e a facilidade com que Deisy é influenciada por essa riqueza “sem conteúdo” mas (como se descobrirá por meio de relatos e flash-backs) com passado. Gatsby e Daisy relacionaram-se no passado e ele tenta, no presente, seduzi-la novamente, com o intuito de que ela deixe o atual marido, Tom.

A leitura é leve e o texto flui com uma rapidez imperceptível. A edição da Editora Record traz vários anexos e apêndices com introduções e críticas a essa obra de Fitzgerald. São leituras complementares válidas pra nós, brasileiros, que gostaríamos de conhecer um pouco mais da recepção de O grande Gatsby no momento de sua publicação nos EUA e também em outros momentos e outros lugares. Fica a dica, então, desse grande livro publicado pela primeira vez em 1925: um romance sobre a Era do Jazz, os anos prósperos e loucos que sucederam a Primeira Guerra Mundial.