Category: Literatura


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

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Com tanta tecnologia à disposição, às vezes é necessário recuar um passos no tempo – somente pra saber onde nos encontramos.

E lembrem-se: “conhecimento” sempre foi diferente de “informação”.

 

 

Renan Belmonte.

O que são dos grandes livros, nessa época em que ninguém lê? Ou lêem outras espécies de escritos?

Iouri Tiniánov, em Formalisme et histoire littéraire, afirmava que “uma época escolhe sempre os fenômenos que lhe são necessários, mas a utilização desses materiais só caracteriza a ela mesma.”

Com isso, quero chamar a atenção para o fato de que a prática de leitura pode estar mudando. Não digo isso para aqueles que trabalham com a língua ou com a literatura, ou mesmo para aqueles no interior das universidades. Refiro-me àqueles que não trabalham com a palavra, ou não devem necessariamente (praticamente) ler.

Várias pesquisas alertaram para o fato de que o tamanho das letras tem aumentado de uns anos pra cá; de igual maneira, o espaçamento entre as linhas.

De fato, quem se entusiasma com um livro de quinhentas páginas, com espaçamento simples e sem imagens? Em detrimento do conteúdo, a tipografia sempre foi (e deve mesmo ser) um chamariz, e, por extensão, um reflexo do que se acredita ser “a leitura” em dada época.

Pergunto-me, então quanto ao conteúdo e à forma, o que é ler Dante Alighieri, Homero, Luis de Camões, Miguel de Cervantes, Charles Dickens, hoje, enquanto hábito compartilhado (por muitos) na contemporaneidade, no ano de 2011, num país tropical de imensa desigualdade social e recentemente flagelado pelas chuvas, chamado Brasil.

Uma vez, li em algum lugar que os países do norte, no período de seu inverno cinza e triste, apresentavam suficiente venda de livros. Convenci-me, durante pouco tempo, que o Brasil não lia porque não tinha um inverno assim, que prendia as pessoas em casa em suas horas de lazer. Sem muito esforço percebi que isso tem a ver com a cultura de cada região, que é ligada a hábitos de leitura, de referências de leitura, de referências históricas.

Ler é difícil. Implica escalar as regiões do alto, onde o ar é rarefeito, não visitadas por quase ninguém. Contudo, é lá onde se escondem os maiores tesouros e os maiores segredos – não sabidos por quase ninguém.

 

Renan Belmonte.

Ano novo no Linkando Alto!

Pra comemorar, esse vídeo publicitário da Eptv, com narração de Lima Duarte.

RECEITA DE ANO NOVO

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Sempre que chegam as festas de fim de ano, costumo deixar de lado momentaneamente as leituras específicas do meu trabalho e voltar à literatura. Nesse fim de ano, escolhi ler Os três mosqueteiros, do francês Alexandre Dumas. Dumas foi um romancista do século XIX, e escreveu, entre outras obras, A dama das camélias, O conde de Monte Cristo, O homem da másccara de ferro, O colar de veludo, etc. Assim, escolhi Os três mosqueteiros por sua sólida presença e seu frequente retorno na cultura ocidental.

Os três mosqueteiros foi alcunhado de “romance histórico”, pelo fato de apresentar características reais das condições de produção do momento em que foi escrito. Isso significa que, por meio do livro, é possível depreender elementos da sociedade francesa do século XIX.

A princípio, o livro intriga pelo título: por que se mencionam “três” mosqueteiros, se são de fato quatro? D’Artagnan é o mais conhecido deles, e ele é o quarto mosqueteiro (aquele que se utiliza de mosquetes). Durante a leitura do livro, percebemos que os mosqueteiros são os guardas do rei Luís XIII da França, e os mais eminentes são três: Athos, Porthos e Aramis. A esses três o título faz referência. Contudo, em dado instante da narrativa, chega de uma pequena província francesa um certo rapaz, jovem ainda (porém de muita coragem) que sonha em fazer parte do grupo de mosqueteiros de Paris. Seu nome é D’Artagnan, que por sua coragem e atitude ajuda os três mosqueteiros em um momento de dificuldade, e suas habilidades são logo reconhecidas pelo rei. É uma questão de tempo, portanto, para que D’Artagnan se torne também um mosqueteiro real.

E pensando nisso, chamou minha atenção uma propaganda atual da Skol. Nela, aparece um slogan que se tornou muito conhecido: “Um por todos e todos por uma”.

 

Slogan Skol

De onde vem, pois, essa voz? Quais são os caminhos que percorreram os sentidos para que, em 2010, em uma publicidade de cerveja, irrompesse tal enunciado?

Esse slogan tem origem em Alexandre Dumas. Como sabemos, o lema dos mosqueteiros era “Um por todos e todos por um”. Quando um mosqueteiro se encontrava em apuros, os outros imediatamente deixavam o que quer que estivessem fazendo para ajudar nos duelos de espada em favor de seus companheiros.

Uma das características dos slogans é deslocar os “saberes comuns”. Ele apropria-se de uma frase conhecida, e a corrompe, transformando-na em “Um por todos e todos por uma”. Esse “uma”, ninguém tem dúvida, é uma latinha/garrafa de Skol. É essa alteração da frase cristalizada que caracteriza o slogan. É nessa mudança que ele atinge o consumidor, ou o espectador da propaganda. É como que um punctum verbal (só pra lembrar Barthes).

Outra razão para a retomada de Dumas nas propagandas de cerveja é o fato de que sua obra é clássica, canônica. Os textos canônicos são inevitavelmente convidados a retornar sem explicação; eles simplesmente retornam e significam, eles compõem as bases culturais da cultura ocidental, e por isso mostram-se sempre presentes, de uma forma ou de outra, em um desenho, em uma música, em uma propaganda, em um slogan.

“A nós, mosqueteiros!”

Renan Belmonte.

Essa frase, escolhida por Ingrid Betancourt para compor o título de seu livro (Não há silêncio que não termine: meus anos de cativeiro na selva colombiana. Ed: Companhia das Letras), é de Pablo Neruda, poeta chileno. “Meu pai” – dizia ela – “sempre recitava pra mim os versos de Neruda, lembrava deles na selva”.

Neruda é hoje um dos maiores nomes no que se refere ao verso em língua espanhola. Seus textos são fundantes em nossa sociedade, por isso podemos considerá-lo como um escritor canônico. Abaixo, os versos “Me gustas cuando callas”:

 

 

Esse é o poema XV do livro Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, publicado em 1924. Neruda escreveu esses versos quando tinha por volta de 20 anos. Neles, cruzam-se o erotismo referente ao corpo feminino e elementos da natureza. Acreditamos que esse livro conseguiu grande projeção; é uma de suas obras mais famosas, de grande maturidade embora tenha sido escrito com 20 anos.

Seus versos mais geniais, na minha opinião, compõem o famoso poema XX:

 

 

As palavras em espanhol nos textos de Neruda parecem acompanhar o objeto denotado. As palavras se aproximam das coisas de uma maneira que poucos poetas sabem de fato fazer.

Como os grandes poetas, Pablo Neruda habita o espaço sagrado do cânone literário, aquele no interior do qual as palavras contraem uma identidade própria segundo a genialidade de seu autor. Em outras palavras, Neruda é uma leitura obrigatória.

“Gosto quando se cala, porque está como que ausente, você me ouve de longe e a minha voz não te toca.”

Renan Belmonte.