Category: Escultura


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

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David de Michelangelo

Conta a lenda que durante três meses Michelangelo ia a um local onde havia um bloco de mármore de carrara, e permanecia lá, sentado, durante horas, somente mirando o bloco. Um observador, não entendo a situação, perguntou-lhe: “O que está fazendo, você que vem e fica por horas olhando esse bloco de pedra?”. Michelangelo sem desviar o olhar disse-lhe: “Trabalhando”. Três anos depois nasceria o David.

David é uma das esculturas mais famosas do artista renascentista Michelangelo. A escultura retrata o herói bíblico com impressionante realismo anatômico, sendo considerada uma das mais importantes obras do Renascimento e do próprio autor. A escultura de 5,17 metros encontra-se atualmente em Florença, na Itália, cidade encomendou a obra à Michelangelo.

Essa escultura é uma prova de superação das limitações humanas. Michelangelo levou três anos para concluí-la, numa época em que seu principal concorrente era Leonardo Da Vinci. Michelangelo utilizou para a escultura um mármore de carrara envelhecido por 25 anos. Michelangelo optou por representar David não após a batalha contra Golias (como o fizeram outros escultores antes dele), mas em um instante imediatamente anterior. Isso explica o furor nos olhos de David, que observa com penetração o adversário.

David - detalhe

A escultura impressiona por todos os ângulos pelos quais a observamos. Visto de frente, David demonstra a força que está prestes a usar. Visto de costas, uma suavidade irrompe dos contornos de seu corpo. Visto da lateral, percebemos que o mármore utilizado para corporificar David é incrivelmente fino, significando que Michelangelo não poderia cometer nenhum erro sequer, caso contrário estaria sujeito a comprometer a obra inteira e, sobretudo, sua reputação em Florença – e na Itália, de um modo geral.

Michelangelo não era somente escultor, mas devia ser também uma espécie de engenheiro, pois não bastava somente executar a escultura – era preciso de igual maneira transportá-la para o local em que se estabeleceria. Transportar uma estátua de mármore de 5,17 metros no ano de 1504 sem danificá-la não era nada fácil.

Resumindo, o David deu muito prestígio e dinheiro a Michelangelo. Foi julgada como uma escultura inovadora por retratar David antes da batalha com Golias, reconhecida por seu realismo anatômico do corpo masculino guerreiro e configura-se, hoje, como uma obra de arte das mais famosas que existem.