Category: Cinema


O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]

Caros leitores do Linkando Alto, estas serão as últimas palavras deste blogue. Infelizmente, ele será interrompido durante um ano por motivos particulares. Gostaria de destacar aqui somente o prazer que tive em compartilhar com vocês temas e questões de meu interesse. Percorremos caminhos nos quais visualizamos aspectos da pintura, da literatura, da escultura, do cinema, da fotografia, da política, e outros mais que considero importantes.

Convido-vos a percorrer os tópicos anteriores, as páginas anteriores, nos quase quarenta textos aqui postados e disponíveis para leitura. São textos que não envelhecem somente porque estão nas páginas anteriores deste blogue. A beleza de David, de Michelângelo; o jogo de espelhos presente no quadro “Las meninas”, de Velásquez; os jogos de câmera dos filmes franceses; o funcionamento das ideologias na mídia impressa; a intersecção entre os contos de fada e a publicidade brasileira – foram alguns tópicos aqui explorados.

Agradeço às 13.096 pessoas que passaram por este blogue desde seu primeiro post até esse momento, perfazendo um ano de existência nesse endereço. Talvez, daqui um ano, eu volte a escrever. Talvez não. O amanhã não se pode prever. L’avenir dure longtemps. Merci à toutes et à tous. Merci beaucoup.

Renan Belmonte.

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Cena de filme! #1

E ai pessoal, como estão? De vez em quando postarei aqui algumas cenas de filmes que acho legais. Desta vez, trata-se de uma cena de Eyes wide shut (De olhos bem fechados) de Stanley Kubrick, 1999. Na minha opinião, esta é a melhor cena do filme. Tensa. Com Nicole Kidman e Tom Cruise. Divirtam-se!

 

 

Renan Belmonte.

 

 

A animação acima, denominada The Piano, é um exemplo de ressignificação musical: a composição em piano (Comptine d’un autre été) pertence originalmente ao filme Amelie Poulin, mas nesta animação ela é o plano de fundo da narrativa visual.

Nessa narrativa, o protagonista é atravessado constantemente por suas memórias, que o assombram e o enfrentam diante de nós, espectadores da curta-animação. Memórias de seu casamento, de sua participação na guerra, da perda de seu amigo e do nascimento de outros personagens…

Vale a pena conferir e observar os sentidos que retornam incessantemente, como as referências à solidão, à passagem do tempo, e à renovação de tudo.

As animações, as músicas e os materiais culturais, em geral, trazem em sua materialidade resquícios de práticas com as quais lidamos diariamente. Elas são o seu reflexo incondicional.

Renan Belmonte.

Há muito tempo não se pode mais dizer que o Brasil não produz filmes de qualidade. O cinema nacional vem se superando exponencialmente. Se ele não é ainda referência em efeitos especiais ou animações digitais, vale dizer que não perde em história, enredo, trama – que felizmente também não deixaram de ser o principal elemento de uma composição de imagens em movimento. Entre algumas opções interessantes, elegi hoje O céu de Suely para comentar.

O céu de Suely (2006)

Chama-se O céu de Suely. No título, entrevemos duas figuras importantes trabalhadas ao longo do longa(-metragem). O céu, em primeiro lugar, ganha no filme uma existência metafórica, uma vez que representa um lugar ao qual se pretende chegar, significando mesmo um objetivo, uma meta, um lugar elevado, melhor. No filme, o céu do Nordeste é muito visível, sempre marcante na maioria das cenas. Em segundo lugar, Suely não é o nome verdadeiro da protagonista, é Hermila. O filme inicia-se quando Hermila retorna de São Paulo, onde trabalhava, para a cidade de Iguatu, no Nordeste, grávida. Seu futuro marido chegará em breve para criarem o filho em sua terra natal. No entanto, o noivo de Suely não retorna e, pelo contrário, desaparece e a deixa com o filho nos braços. Vendo-se em dificuldades financeiras, Hermila começa a trabalhar em vários lugares para conseguir algum dinheiro. Não tendo sucesso no que faz, toma uma decisão polêmica: rifar-se. É nesse momento que ela muda seu nome para Suely, a garota que vende rifas para – como ela mesma denomina – “uma noite no paraíso”. Com quem? Com ela mesma.

Com o dinheiro da rifa, ela almeja comprar uma passagem para o lugar mais longe de sua cidade, que é Porto Alegre. A cidade de Iguatu é profundamente simbólica, tanto no filme como em sua localização geográfica na realidade, pois representa um espaço de passagem, de transição, de breve parada (de caminhoneiros). A localização dessa cidade no Nordeste faz com que ela transmita uma sensação de “lugar de passagem”, um lugar-outro, um lugar sem lugar, como diria o filósofo francês Michel Foucault. Junto a isso, soma-se o descontentamento de Suely em relação à estagnação, que é a principal característica da protagonista. O que traduz a personagem Suely é movimento, dinamicidade, propulsão (em direção a um céu imaginário, mas que se acredita estar lá).

Enfim, acontece o sorteio da rifa. Sua irmã é a responsável por falar com o ganhador pelo telefone e agendar com ele o encontro. Marca-se em um posto de gasolina à beira da rodovia, para depois irem a um motel próximo. A cena da entrega do prêmio (leia-se: cena de sexo) é uma das principais do filme. Uma noite inteira. Suely é apressada, quer terminar logo; o ganhador, contudo, não está preocupado – quer fazer a noite durar, pede-lhe pra dançar… Na cidade, há um imenso burburinho, mexericos, fofocas. Essas intrigas penetram na família de Suely, gerando ainda mais conflitos.

À parte os detalhes da narrativa, creio ser importante destacar alguns aspectos da direção. Em primeiro lugar, os nomes dos personagens no filme são os mesmos dos atores que os interpretam. Essa foi uma escolha do diretor (algum tempo depois dos ensaios) para que fosse gerada uma ilusão de proximidade nas cenas. Em segundo lugar, os atores conviveram nessa cidade alguns poucos meses antes do início das gravações para adquirir o feeling do lugar, seus costumes, criar laços com a população local, conhecer seus vizinhos, acostumar-se com as roupas das próprias personagens e desfilar com elas pela cidade, como se fossem os próprios atores. Não se pode dizer que o filme não é inovador. Ele, de fato, é.

A cena final, portanto, é a materialização do que é a personagem Suely. É sua síntese: um ônibus, focalização do personagem Suely, close em seu rosto. É ela atrás de seus sonhos, apesar de todas as dificuldades que a cercam.

Até a próxima análise!

Renan Belmonte.

Gaspar Noé é um diretor franco-argentino (nasceu em Buenos Aires em 1963). Seu filme Irreversível (2002) foi indicado no Festival de Cannes e ganhou o “Cavalo de Bronze” no Festival de Estocolmo. Durante sua apresentação em Cannes, chocou os espectadores. O filme narra de trás pra frente o percurso de dois personagens no submundo de Paris em busca do estuprador de Alex.

Capa de Irreversível

O QUE DIZEM OS ESTUDIOSOS DE CINEMA – Para Cristian Metz (autor de A significação no cinema), “a fotografia fixa é de certo modo vestígio de um espetáculo passado, poderíamos imaginar que a fotografia animada (o cinema) fosse percebida de modo análogo, como vestígio de um movimento passado”. Esse fato não ocorre, porque o espectador percebe sempre o movimento como algo atual.

O TEMPO – Logo no início de Irréversible, deparamo-nos com os créditos de encerramento da produção, que estamos acostumados a ver depois do término do filme. Eles surgem de baixo para cima, como de praxe, mas do fim para o começo. Irréversible em si é narrado do fim para o começo. Se enxergássemos o filme no padrão cronológico normal, veríamos uma história relativamente simples: a busca por vingança de um homem e seu amigo (Marcus – Vincent Cassel – e Pierre – Albert Dupontel –) em função do estupro de sua mulher (Alex – Monica Bellucci). No entanto, o filme se torna fascinante justamente pelo fato como Gaspar Noé escolheu narrar essa trama. A primeira cena do filme (que é, portanto, a última) mostra-nos dois personagens conversando, e da boca de um deles sai a frase que se tornará a “manchete” do filme: Le temps détruit tout (“o tempo destrói tudo”). Nessa primeira cena, o espectador se depara com dois elementos essenciais que serão explorados e desenvolvidos ao longo do filme: a temporalidade e a questão do estupro.

A CÂMERA – Durante o filme, e mais intensamente em seu início, a câmera gira descontroladamente. Para Pablo Villaça (Cinema em cena), isso causa desconforto no espectador e age como um “termômetro” do estado psicológico dos personagens Marcus e Pierre. As movimentações bruscas da câmera vão se amenizando com o passar do tempo porque, voltando ao passado, os personagens “acalmam-se” em razão de suas vidas serem observadas antes do estupro e da busca por vingança. A raiva dos personagens é gradativamente desconstruída ao passo que o tempo recua.

O ESPAÇO – Os espaços retratados no filme refletem também uma preocupação de Gaspar Noé em questionar o padrão de normalidade de uma época. Num primeiro momento da projeção, entramos em uma boate gay, denominada Rectum, que chega a assustar pela depravação ali promovida. Entrevemos cenas de fetichismo, sadomasoquismo e violência.  Enquanto busca saber o paradeiro de Ténia (o estuprador de Alex), Marcus interroga vários clientes do Rectum, e é recebido com respostas como “fiste-moi” (“enfie o punho em mim”) ou “tu veux me sucer?” (“você quer me chupar?”). Num segundo momento, como lembra Villaça, Noé nos mostra uma festa realizada por burgueses heterossexuais, na qual pessoas cheiram cocaína e praticam orgia. Trata-se aqui de comparar esses dois espaços e problematizar o motivo pelo qual, numa dada sociedade, em certo momento histórico, um deles é aceito e o outro não. Segundo Michel Foucault (Outros espaços), “o espaço contemporâneo talvez não esteja ainda inteiramente dessacralizado”. A boate gay que nos é apresentada tem a função de estabelecer relações com os demais espaços da sociedade, sobretudo com a festa de heterossexuais burgueses. Poderíamos caracterizar esse bordel “só de homens” como uma espécie de um “lugar-outro”:

Há […] em qualquer cultura, em qualquer civilização, lugares reais, lugares efetivos, lugares que são delineados na própria instituição da sociedade, e que são espécies de contraposicionamentos, espécies de utopias efetivamente realizadas nas quais os posicionamentos reais […] estão ao mesmo tempo representados, contestados e invertidos, espécies de lugares que estão fora de todos os lugares, embora eles sejam efetivamente localizáveis. Esses lugares […] eu os chamarei, em oposição às utopias, de heterotopias. (FOUCAULT, Outros espaços).

O Rectum constitui um espaço em que se encontram pessoas com um determinado perfil e que têm a intenção de compartilhar uma mesma experiência. Essa experiência se contrapõe a práticas sociais tidas como “aceitas”. Os resquícios de sacralização contidos na sociedade “correta”, hoje, por exemplo, interditam a prática do masoquismo.

A CENA DE ESTUPRO – Após brigar com o namorado em uma festa, Alex decide voltar sozinha para casa no meio da madrugada. Diante de uma avenida muito movimentada, ela resolve usar uma passarela subterrânea para pegar um táxi. No túnel escuro, ela caminha até ser surpreendida por um homem espancando um travesti. Alex fica paralisada, não sabe se tenta terminar a travessia ou volta por onde entrou. Os segundos de incerteza são cruciais e o homem a vê. E se interessa. Ela tenta fugir, mas é ameaçada com uma faca, agredida, humilhada, estuprada e espancada quase até a morte.

O estupro de Alex

Essa cena talvez figure entre as mais violentas do cinema dos últimos tempos. A sequência é realizada em uma única tomada, transformando-nos em testemunhas impotentes do drama da vítima. Gaspar Noé mantém o foco no rosto da vítima, que é gradual e literalmente destruída (graças a efeitos de computação gráfica) diante de nossos olhos. A violência sexual cometida através de ameaça (a faca) é uma constante nos crimes desse tipo. Sua recorrência faz emergir a questão da fragilidade feminina, que é explícita no filme não só pela superioridade física do homem que a ameaça como pela arma que porta. É uma violência sem testemunhas – surge um personagem no plano de fundo no início da cena de estupro, mas quando percebe o que está acontecendo, deixa o local sem ser percebido. O interessante é que o homem que a estupra é homossexual (ele está com um travesti, fala que gosta de transar com homens e frequenta o Rectum).

A cena torna-se mais tensa quando, mais adiante no filme, revela-se que Alex estava grávida, fazendo com que o futuro pese sobre passado. O perfil do sujeito-estuprador, aqui, mostra-nos vários vértices: a) tem interesse por homens e travestis; b) sente-se impelido a machucá-la pelo fato de ela pertencer à classe burguesa; c) estupra uma mulher fazendo comparações com rapazes.

O conjunto desses três elementos é muito difícil de ser encontrado no início dos relatos e queixas de estupro (da França do século XVI). Por outro lado, os relatos de estupro contra crianças cresceram exponencialmente com o passar dos anos, porque, num primeiro momento, era relatado somente o estupro de mulheres adultas por homens heterossexuais. Há mais rigorosidade na relação entre o discurso jurídico e o crime de estupro em função do desenvolvimento histórico. Encontramos essas informações em Vigarello (História do Estupro).

Por tudo isso, consideramos Irréversible um filme que traz elementos interessantes para o espectador. Alguns deles são, como dissemos, o tratamento do tempo, do espaço e da movimentação da câmera. Mas ele pode chocar. E muito.

Algumas referências

IRREVERSIBLE. Direção de Gaspar Noé. França: Nord-Ouest Production / Studiocanal France, 2002.

FOUCAULT, M. Outros espaços. In: MOTTA, M. B. (Org.). Michel Foucault Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. p. 411-422. (Ditos & Escritos, v III).

VIGARELLO, Georges. História do estupro: violência sexual nos séculos XVI-XX. Trad. brás. de Lucy Magalhães.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

VILLAÇA, Pablo. Irreversível. Cinema em cena, 23 ago. 2003. Disponível em: <<http://www.cinemaemcena.com.br/cinemacena/crit_editor_filme.asp?cod=2249>&gt;. Acesso em: 23 mar. 2009.

Até a próxima análise!

Renan Belmonte.