O que são dos grandes livros, nessa época em que ninguém lê? Ou lêem outras espécies de escritos?

Iouri Tiniánov, em Formalisme et histoire littéraire, afirmava que “uma época escolhe sempre os fenômenos que lhe são necessários, mas a utilização desses materiais só caracteriza a ela mesma.”

Com isso, quero chamar a atenção para o fato de que a prática de leitura pode estar mudando. Não digo isso para aqueles que trabalham com a língua ou com a literatura, ou mesmo para aqueles no interior das universidades. Refiro-me àqueles que não trabalham com a palavra, ou não devem necessariamente (praticamente) ler.

Várias pesquisas alertaram para o fato de que o tamanho das letras tem aumentado de uns anos pra cá; de igual maneira, o espaçamento entre as linhas.

De fato, quem se entusiasma com um livro de quinhentas páginas, com espaçamento simples e sem imagens? Em detrimento do conteúdo, a tipografia sempre foi (e deve mesmo ser) um chamariz, e, por extensão, um reflexo do que se acredita ser “a leitura” em dada época.

Pergunto-me, então quanto ao conteúdo e à forma, o que é ler Dante Alighieri, Homero, Luis de Camões, Miguel de Cervantes, Charles Dickens, hoje, enquanto hábito compartilhado (por muitos) na contemporaneidade, no ano de 2011, num país tropical de imensa desigualdade social e recentemente flagelado pelas chuvas, chamado Brasil.

Uma vez, li em algum lugar que os países do norte, no período de seu inverno cinza e triste, apresentavam suficiente venda de livros. Convenci-me, durante pouco tempo, que o Brasil não lia porque não tinha um inverno assim, que prendia as pessoas em casa em suas horas de lazer. Sem muito esforço percebi que isso tem a ver com a cultura de cada região, que é ligada a hábitos de leitura, de referências de leitura, de referências históricas.

Ler é difícil. Implica escalar as regiões do alto, onde o ar é rarefeito, não visitadas por quase ninguém. Contudo, é lá onde se escondem os maiores tesouros e os maiores segredos – não sabidos por quase ninguém.

 

Renan Belmonte.