Archive for janeiro, 2011


Essa frase era recorrentemente proferida por Robert Capa, fotógrafo húngaro, nascido em 1913: “Se as fotos não são suficientemente boas, é porque não estou suficientemente perto”.

Uma de suas fotos mais conhecidas mundialmente é esta:

Morte do Soldado Legalista, 1936

Em plena Guerra Civil Espanhola, Capa registra o exato momento em que um soldado das forças republicanas é atingido fatalmente na cabeça. Se observarmos de perto, percebemos a saída da bala do crânio do soldado.

O que impressiona nessa foto é a captura do evento. A captura do instante imponderável. O soldado nem havia caído ainda, e talvez mesmo nem a própria morte havia se consumado. A fotografia é isso: o congelamento do inominável, do instante arredio, um fração do momento contínuo, e que às vezes é chocante.

Renan Belmonte.

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O forasteiro

As linhas seguintes pretendem definir o que é um forasteiro.

O espaço é sempre outro, o tempo é sempre pouco, e as pessoas com quem ele se relaciona mudam indefinidamente: para o forasteiro, deslocar-se é uma necessidade. Ele tem qualquer coisa da cultura nômade, creio, cuja prática do deslocamento constante é sua maior herança.

Quando chega em um lugar desconhecido, o forasteiro não é jamais aceito de antemão, ele deve conquistar todas as pessoas com as quais ele deseja travar relações. De imediato, ele é visto como um diferente, um elemento que não pertence ao grupo – um estranho. Este é o obstáulo inicial do forasteiro, o de haver sempre a necessidade da conquista do outro. Uma vez introduzido no grupo, o forasteiro possui um trunfo: a “primeira impressão”. Uma vez que ele é o estranho, possui como ninguém a habilidade de manipular a imagem que os outros fazem dele. A primeira impressão é a principal arma do forasteiro.

Os rostos são sempre diferentes, e o forasteiro tenta incessantemente enxergar os traços que identificam os seus alvos. O forasteiro é antes de tudo uma máquina de manipular: frio e vil. Sua rotina consiste em manipular a imagem que os outros fazem dele para deles extrair o que lhe é de interesse. Uma vez conquistado o objetivo, o forasteiro coloca pessoas de lado, mas não as deixa distantes, pois elas podem lhe ser útil em momentos de desconforto.

O forasteiro é um eterno aprendiz, pois tem contato constante com seus opostos – e seus diferentes. O forasteiro tem o poder da objetividade, observando todos os fatos e todas as pessoas com um distanciamento que somente ele é capaz de agenciar; à sua maneira, portanto, ele reconhece comportamentos, gestos corporais que são repetitivos em um dado grupo.

O forasteiro é um eterno professor, pois suas experiências acumuladas nunca o deixam sozinho. Por mais que se encontre diante de situações novas, as velhas lembranças são convidadadas a retornarem – mesmo quando não são requisitadas. Sendo assim, ele tem sempre histórias a contar, experiências a compartilhar. Isso faz dele um sujeito de comunicação, pois a conversa um é uma de suas principais ferramentas com vistas a manipular o outro.

O forasteiro não esquece jamais o lugar de onde é. No entanto, ele é de outros lugares, e sua origem compõe como que uma pequena – porém importante – parcela da soma dos lugares pelos quais passou. Em trajeto pelos lugares novos, a lembrança do local de onde o forasteiro é sempre vem sob o signo da contraposição. Uma cidade nova só é nova na medida em que se diferencia mais ou menos de seu lugar.

O forasteiro é um flâneur, na medida em que ele é sempre distante (objetivamente distante), mas subjetivamente próximo (emocionalmente demasiado próximo). Seus olhos são de lince, à procura de caças que se deixam ler, que se deixam levar, que se deixam matar. Os forasteiros não são nem mais felizes nem mais tristes que as pessoas comuns, ele apenas vivenciam as experiências de forma mais intensa do que os outros. Sua vida constrói-se nas cicatrizes indeléveis da constante mutação.

Renan Belmonte.

Ano novo no Linkando Alto!

Pra comemorar, esse vídeo publicitário da Eptv, com narração de Lima Duarte.

RECEITA DE ANO NOVO

“Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”

(Carlos Drummond de Andrade)