Por ocasião dessas eleições de 3 de outubro, fiquei esperando o posicionamento dos jornais impressos do dia seguinte, comentando os fatos. Devo dizer que não fiquei surpreendido.

O objetividade da mídia (jornais, telejornais, revistas) é uma ilusão. O que se tem, efetivamente, é um “efeito de objetividade” buscado pelo discurso jornalístico. Dessa maneira, quando dizemos que alguma notícia foi imparcial, o “efeito de objetividade” foi alcançado com sucesso, enredando os sujeitos em uma crença de que se narra os fatos pelos fatos. É por isso que escrevi esse post.

Assim, no dia 4 de outubro, surge nas bancas o seguinte exemplar da Folha de S. Paulo:

 

F.S.P 4 out 2010

 

Como sabemos, a Folha se coloca naquilo que se convencionou chamar de “mídia de direita” brasileira. E ainda assim, é problemático dizer “direita política” uma vez que há tantas coligações e interesses próprios de nossos “honestos” políticos… mas é preciso chamá-la de algum nome.

O fato é que Dilma Rousseff e José Serra foram para o segundo turno. A petista recebeu 47.651.434 votos, o equivalente a 46,91% dos votos válidos (que exclui brancos e nulos). Serra obteve 33.132.283 votos (32,61% dos votos válidos). Marina Silva (PV) foi a terceira, com 19.636.359 votos (19,33%).

Considerando a página principal da Folha, observamos as imagens de Serra e Dilma lado a lado, do mesmo tamanho, realizando ambos quase o mesmo gesto de cumprimento aos eleitores. Será objetividade? Na verdade, é efeito – a Folha explora uma “ordem do olhar” para destacar a foto de José Serra. A ordem do olhar faz com que percorremos as fotografias sequenciais da esquerda para a direita (como acontece nas histórias em quadrinhos, por exemplo). Esse fato confere à foto de Serra uma posição de destaque.

Não bastasse as imagens falarem por si (e por outros), o texto também age em prol do efeito. “Marina arranca e força 2º turno entre Serra e Dilma”, logo acima das seguintes notícias fragmentadas:

 

(Clique nas imagens para ampliar)

 

Onde observamos

a) ênfase em elementos negativos da eleição de Dilma Rousseff: “Petista perde votos na classe C”

b) ênfase em elementos positivos da eleição de José Serra: “Tucano recupera eleitores em SP e fica acima do estimado nas últimas pesquisas”.

Portanto, nesse breve texto que deve ser um post, é possível dizer que

1)      A disposição das imagens colabora para o destaque de José Serra;

2)      O texto sob a imagem atribui à Marina Silva o papel de forçar o segundo turno;

3)      O caderno especial de eleições da Folha enfatiza elementos negativos de Dilma Rousseff e elementos positivos de José Serra.

É por esses e outros motivos que o discurso da Folha inflexiona-se para a chamada “direita” política e não para a esquerda, a partir de significados visuais e textuais. Esses traços do sentido são sobretudo sutis, imperceptíveis em uma primeira batida do olhar. Um olhar treinado, contudo, descobre nuances, desvela intenções… Em suma, as intencionalidades podem ser agarradas no ar.

Até a próxima análise! Não deixem de comentar!

Renan Belmonte.