Por ocasião de um trabalho acadêmico, acabei relendo Dom Casmurro, de Machado de Assis, o último romance de sua trilogia mais madura (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro). Tinha me esquecido de como esse livro é genial. Machado não nos deixa pistas se, de fato, Capitu traiu Bentinho – uma vez que sabemos dos fatos por meio da visão subjetiva do narrador (em primeiríssima pessoa): Bento Santiago. Muitos são os conteúdos midiáticos que derivaram da obra literária de Machado, ou seja, o filme Dom e a minissérie global Capitu, entre outros. Muito se fala dos “olhos de ressaca” de Capitu, uma das personagens mais atrevidas e interessantes da literatura brasileira. Por isso, resolvi resgatar o trecho do livro em que Bentinho se vê diante dos olhos de Capitu. A partir dessas linhas, todo o mais se fez.

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– Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.
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Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.” Eu não sabia o que era obliqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira, eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que…
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Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar o gozo aos bem aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dane; mas eu não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas então com as mãos, e disse-lhe, para dizer alguma cousa, que era capaz de os pentear, se quisesse.     “
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Dom Casmurro (p. 70).
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O destaque em amarelo sublinha a explicação da metáfora da ressaca, como o mar que, depois de quebrar suas ondas, atrai-nas novamente às suas profundezas.
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Renan Belmonte.