A mídia eletrônica – em especial a blogosfera – não fala de outra coisa: Cléo Pires, filha de Glória Pires e Fábio Júnior, será capa da edição comemorativa de 35 anos da revista Playboy. Essa edição, em especial, e como nunca antes, será recheada por dois ensaios distintos protagonizados pela atriz de 27 anos. Zapeando entre links que tratam do assunto e entre fotografias prévias do ensaio que sem demora foram logo colocadas em circulação, deparei-me com a imagem abaixo.

Cleo Pires - por Bob Wolfenson

O corpo (ou o que vemos dele) está levemente inclinado para o lado. O rosto destaca-se por estar devidamente alinhado com a câmera fotográfica. Os olhos nos encaram, impassíveis. Prometem uma penetração irreversível. Ameaçam revelar nosso segredo, se de fato houver algum, mais recôndito. A palavra é essa: “ameaçam”. Mas ao mesmo tempo seduzem. Entre o aço do olhar e a fragilidade do corpo feminino, o espetáculo libera seu volume.

Por conta disso (mas não só), resolvi investigar a emergência da expressão, isto é, os motivos pelos quais as expressões faciais significam tal ou tal coisa. E vejam só: desde tempos imemoriais os homens desejam decifrar os sinais do rosto – ler seus signos, seus sintomas.

A ciência que pretendia ler as marcas do rosto a fim de desvendar a alma do indivíduo chamava-se Metoscopia. A metoscopia é para o rosto o que a quiromancia é para as mãos. Existiam compêndios de metoscopia datados do ano 1658, vejam:

Recorte de J. Cardan, Métoscopie, Paris, 1658. Em: Courtine e Haroche, p. 48.

LEGENDAS 1 – “Rosto marcado por linhas de viagens marítimas” /2 – “Rosto marcado por linhas de viagens terrestres” /3 – “Rosto marcado por linhas de inconstância” / 4 – “Rosto marcado por linhas de usura”. [Cliquem na foto para ampliá-la].

No ano de 1658, algumas pessoas acreditavam que a alma de uma pessoa era exteriorizada através de marcas no rosto. E essas marcas podiam ser lidas – pela metoscopia. Outro exemplo:

Ch. Le Brun, Fisionomias de homens e de animais, 1671 - Foto do Museu do Louvre. Em: Courtine e Haroche, p. 72.

Essa página é de um livro de 1671, que explicava a correlação entre as fisionomias de homens e de animais, segundo a qual, se um homem se assemelhasse com determinado animal, era porque ele possuía as mesmas características de personalidade do animal correspondente. É o caso da imagem acima – a coruja. O homem seria sagaz e esperto como a coruja, uma vez que possuía os olhos atentos e redondos; o nariz pontiagudo e a boca pequena.

Voltando à foto registrada por Bob Wolfenson, de Cléo Pires: a morfologia de seu rosto atesta a paternidade de Fábio Jr.

[FILHA E PAI]

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A princípio, as correspondências físicas são inegáveis. Ok. Mas… e quanto à sua personalidade, suas vontades, seu passado; essas características são explicitadas por marcas faciais? O que se deixa ser compreendido entre o aço do olhar e a lente da câmera?

Até mais!

Renan Belmonte.

Algumas referências

COURTINE, J.-J.; HAROCHE, C. História do Rosto. Lisboa: Editora Teorema.