Há muito tempo não se pode mais dizer que o Brasil não produz filmes de qualidade. O cinema nacional vem se superando exponencialmente. Se ele não é ainda referência em efeitos especiais ou animações digitais, vale dizer que não perde em história, enredo, trama – que felizmente também não deixaram de ser o principal elemento de uma composição de imagens em movimento. Entre algumas opções interessantes, elegi hoje O céu de Suely para comentar.

O céu de Suely (2006)

Chama-se O céu de Suely. No título, entrevemos duas figuras importantes trabalhadas ao longo do longa(-metragem). O céu, em primeiro lugar, ganha no filme uma existência metafórica, uma vez que representa um lugar ao qual se pretende chegar, significando mesmo um objetivo, uma meta, um lugar elevado, melhor. No filme, o céu do Nordeste é muito visível, sempre marcante na maioria das cenas. Em segundo lugar, Suely não é o nome verdadeiro da protagonista, é Hermila. O filme inicia-se quando Hermila retorna de São Paulo, onde trabalhava, para a cidade de Iguatu, no Nordeste, grávida. Seu futuro marido chegará em breve para criarem o filho em sua terra natal. No entanto, o noivo de Suely não retorna e, pelo contrário, desaparece e a deixa com o filho nos braços. Vendo-se em dificuldades financeiras, Hermila começa a trabalhar em vários lugares para conseguir algum dinheiro. Não tendo sucesso no que faz, toma uma decisão polêmica: rifar-se. É nesse momento que ela muda seu nome para Suely, a garota que vende rifas para – como ela mesma denomina – “uma noite no paraíso”. Com quem? Com ela mesma.

Com o dinheiro da rifa, ela almeja comprar uma passagem para o lugar mais longe de sua cidade, que é Porto Alegre. A cidade de Iguatu é profundamente simbólica, tanto no filme como em sua localização geográfica na realidade, pois representa um espaço de passagem, de transição, de breve parada (de caminhoneiros). A localização dessa cidade no Nordeste faz com que ela transmita uma sensação de “lugar de passagem”, um lugar-outro, um lugar sem lugar, como diria o filósofo francês Michel Foucault. Junto a isso, soma-se o descontentamento de Suely em relação à estagnação, que é a principal característica da protagonista. O que traduz a personagem Suely é movimento, dinamicidade, propulsão (em direção a um céu imaginário, mas que se acredita estar lá).

Enfim, acontece o sorteio da rifa. Sua irmã é a responsável por falar com o ganhador pelo telefone e agendar com ele o encontro. Marca-se em um posto de gasolina à beira da rodovia, para depois irem a um motel próximo. A cena da entrega do prêmio (leia-se: cena de sexo) é uma das principais do filme. Uma noite inteira. Suely é apressada, quer terminar logo; o ganhador, contudo, não está preocupado – quer fazer a noite durar, pede-lhe pra dançar… Na cidade, há um imenso burburinho, mexericos, fofocas. Essas intrigas penetram na família de Suely, gerando ainda mais conflitos.

À parte os detalhes da narrativa, creio ser importante destacar alguns aspectos da direção. Em primeiro lugar, os nomes dos personagens no filme são os mesmos dos atores que os interpretam. Essa foi uma escolha do diretor (algum tempo depois dos ensaios) para que fosse gerada uma ilusão de proximidade nas cenas. Em segundo lugar, os atores conviveram nessa cidade alguns poucos meses antes do início das gravações para adquirir o feeling do lugar, seus costumes, criar laços com a população local, conhecer seus vizinhos, acostumar-se com as roupas das próprias personagens e desfilar com elas pela cidade, como se fossem os próprios atores. Não se pode dizer que o filme não é inovador. Ele, de fato, é.

A cena final, portanto, é a materialização do que é a personagem Suely. É sua síntese: um ônibus, focalização do personagem Suely, close em seu rosto. É ela atrás de seus sonhos, apesar de todas as dificuldades que a cercam.

Até a próxima análise!

Renan Belmonte.