(1) Las meninas - Diego Velásquez

O pintor está ligeiramente retirado no quadro. Ele lança um olhar para o modelo: talvez se trate de acrescentar um último toque, mas é também possível que o primeiro traço ainda não tenha sido dado. O braço que sustenta o pincel está dobrado para a esquerda, na direção da palheta; ele está, por um momento, imóvel entre a tela e as cores. Essa mão hábil está suspensa ao olhar; e o olhar, retroativamente, repousa sobre o gesto detido. Entre a fina ponta do pincel e o aço do olhar, o espetáculo vai liberar seu volume. (Michel Foucault, As damas de companhia).

Um volume incontornável em sua totalidade, maior do que os olhos podem ver. Essa é a sensação que temos ao olhar para esse quadro de Diego Velásquez, um dos maiores pintores espanhóis que já viveu no século XVII. À parte os detalhes de sua vida pessoal, em seus quadros é recorrente a ideia da consciência da representação, muito característica de Velásquez. Em Las meninas, essa “consciência” é atingida quando nos detemos um instante a mais na observação dessa obra-prima. Num primeiro momento, somos levados a crer que o modelo a ser pintado é a menina de vestido branco, pois ela ocupa o centro da pintura, a luz incide sobre ela e as damas de companhia inclinam-se em sua direção, conferindo-lhe destaque. Daí irrompe o primeiro choque: o pintor olha para fora do quadro: o que ele quer pintar não se encontra dentro da pintura, ou seja, o modelo se encontra fora das molduras. Enfim, o segundo choque: percebemos próximo ao pintor e atrás da menina (ao centro) um espelho, e nele entrevemos a figura distorcida do casal real, Felipe IV e sua esposa Marianna. Ao centro do quadro, percebemos, é a infanta Margarita.

Deixamo-nos permanecer, ainda, diante do quadro… observando seu jogo de espelhos. As pinturas na pintura, o reflexo em tintas, uma geometria espacial construída de tal forma a confundir o espectador mais desatento. O que o quadro quer mostrar (mostrar? dizer?), sim, é esse jogo de olhares, de reflexos, de contemplação desconfortável. E eis que vem a Internet e desestrutura esse jogo múltiplo.

(2) Las meninas tv - Siro López

Essa criação de Siro López é como um sopro em um castelo de cartas. A televisão aí inserida desestrutura o jogo de olhares ao mesmo tempo em que desloca o quadro para nossa contemporaneidade. A tevê ocupa um lugar especial na sala, distraindo as crianças enquanto o pintor faz seu trabalho, que não as interessa. Todo o trabalho de iluminação que emerge da tevê restitui à princesa seu papel central no quadro, esquecido na versão original. As damas de companhia que rodeiam a princesa – e inclusive ela – não olham mais para o exterior do quadro, para fora das margens, da moldura; mas para a tevê, dentro ainda do quadro. A breve pausa do pintor talvez se deva a um momento importante da novela…

A manipulação digital de obras canônicas é muito interessante. Ela dá margem a outras interpretações possíveis, deixa o sentido navegar por outros continentes. Vale a pena conferir mais dessas releituras presentes no site Consumehastamorir.org.

(*) Esse texto foi publicado na blogosfera  da Eptv – Interior de SP. Confira “Blog no ar”  http://eptv.globo.com/blog/?http://eptv.globo.com/blog/blog.asp?id=40